Por que eu ajo assim? Entenda o que seus comportamentos podem estar tentando comunicar

Antes de se culpar por procrastinar, evitar, controlar ou agir por impulso, entender a função de um comportamento pode ajudar você a construir novas formas de lidar com o que sente.

“Por que eu faço isso se sei que me faz mal?”

Talvez você já tenha feito essa pergunta depois de procrastinar novamente, perder a paciência, evitar uma conversa importante ou repetir um comportamento que havia prometido que mudaria.

Quando percebemos esses padrões, é muito fácil partir para o julgamento:

“Eu não tenho força de vontade.”

“Eu sempre estrago tudo.”

“Por que eu sou assim?”

Mas existe outra pergunta que pode ser muito mais útil:

O que acontece comigo quando eu ajo dessa forma?

Na psicologia, compreender um comportamento não significa apenas olhar para aquilo que a pessoa faz. Também buscamos entender o que acontece antes, o que ela sente, quais pensamentos aparecem e quais consequências aquele comportamento produz.

Às vezes, um comportamento que causa problemas no longo prazo está cumprindo uma função importante no curto prazo.

E entender isso pode mudar completamente a maneira como olhamos para nós mesmos.

Todo comportamento quer nos dizer alguma coisa?

Não necessariamente no sentido de existir uma mensagem escondida que precisa ser descoberta. Mas nossos comportamentos acontecem dentro de um contexto.

Eles podem ter sido aprendidos ao longo da vida, podem ser influenciados pelas nossas emoções e pensamentos e, muitas vezes, continuam acontecendo porque produzem alguma consequência imediata.

Por isso, em vez de perguntar apenas:

“Como faço para parar?”

Pode ser interessante perguntar:

“O que esse comportamento faz por mim neste momento?”

A resposta nem sempre será óbvia.

Quando algo que faz mal também traz alívio

Imagine uma pessoa que evita situações sociais porque sente muita ansiedade.

No curto prazo, cancelar um compromisso pode produzir uma sensação imediata de alívio.

Ela pensa:

“Ufa. Não vou precisar enfrentar aquilo.”

Esse alívio ensina ao cérebro algo importante: evitar funcionou.

O problema é que, no longo prazo, essa pessoa pode ficar cada vez mais insegura diante das mesmas situações.

Esse princípio aparece em muitos comportamentos.

Algo pode trazer consequências negativas depois e, ainda assim, continuar acontecendo porque resolve, mesmo que temporariamente, algum desconforto agora.

É por isso que simplesmente saber que um comportamento “faz mal” nem sempre é suficiente para conseguir mudá-lo.

Procrastinação: talvez não seja apenas preguiça

Você sabe que precisa começar uma tarefa.

Mas ela parece difícil, cansativa ou importante demais.

Então você pega o celular.

Por alguns minutos, aquela sensação desagradável desaparece.

Talvez a procrastinação esteja ajudando você a evitar ansiedade, medo de errar, tédio, insegurança ou frustração.

Isso não significa que procrastinar seja a melhor estratégia.

Significa que, se quisermos mudar esse comportamento, talvez seja necessário entender também o desconforto que aparece antes dele.

Necessidade de controle: o que acontece quando você não consegue prever?

Algumas pessoas tentam planejar cada detalhe, antecipar problemas e garantir que tudo aconteça exatamente como esperavam.

Por trás dessa necessidade de controle, pode existir dificuldade para lidar com incerteza, medo ou ansiedade.

Controlar produz uma sensação temporária de segurança.

O problema aparece quando a tentativa de eliminar toda incerteza começa a consumir energia, aumentar a ansiedade ou gerar conflitos.

Talvez a pergunta não seja apenas:

“Como posso parar de controlar?”

Mas também:

“O que eu temo que aconteça se eu não tiver controle?”

Agradar todo mundo: o que você teme perder?

Dizer “sim” quando queria dizer “não”.

Evitar discordar.

Assumir responsabilidades demais.

Tentar garantir que ninguém fique chateado com você.

Esses comportamentos podem estar relacionados ao medo de rejeição, conflito ou desaprovação.

No momento, agradar pode diminuir a ansiedade.

Mas, com o tempo, pode gerar sobrecarga, ressentimento e dificuldade para reconhecer as próprias necessidades.

Nesse caso, estabelecer limites não envolve apenas aprender a dizer “não”.

Também pode envolver aprender a tolerar a possibilidade de que alguém não goste da sua decisão.

Impulsividade: quando agir rapidamente traz alívio

Emoções intensas podem criar uma sensação de urgência.

“Preciso responder agora.”

“Preciso resolver isso.”

“Não aguento sentir isso.”

Agir impulsivamente pode diminuir essa tensão por alguns instantes.

Depois, porém, podem surgir culpa, arrependimento ou novas consequências.

Compreender esse ciclo ajuda a trocar a pergunta:

“Por que eu faço essas coisas?”

por:

“Que emoção ou desconforto estou tentando aliviar quando ajo assim?”

Essa mudança abre espaço para desenvolver outras maneiras de atravessar a emoção sem precisar agir imediatamente.

Isolamento: às vezes se afastar parece mais seguro

Quando alguém está magoado, ansioso ou com medo de ser rejeitado, afastar-se pode parecer a opção mais segura.

O isolamento pode proteger temporariamente de críticas, conflitos ou novas decepções.

Mas, quando se torna um padrão rígido, também pode aumentar a solidão e o sofrimento.

Novamente, compreender a função não significa dizer que o comportamento precisa continuar.

Significa entender por que abandoná-lo pode ser tão difícil.

Compreender não é justificar

Esse ponto é muito importante.

Entender por que você age de determinada maneira não significa justificar comportamentos prejudiciais ou deixar de assumir responsabilidade por suas escolhas.

Significa aumentar a compreensão necessária para conseguir mudar.

Se você apenas pensa:

“Preciso parar de fazer isso”,

mas não entende o que mantém aquele comportamento, pode acabar repetindo o mesmo ciclo inúmeras vezes.

Mudanças mais consistentes costumam exigir algo além de força de vontade.

Elas exigem compreensão, habilidades e alternativas.

Troque julgamento por curiosidade

Da próxima vez que perceber um comportamento que gostaria de mudar, experimente observar:

O que aconteceu antes?

O que eu estava pensando?

O que estava sentindo?

O que tive vontade de fazer?

O que aconteceu imediatamente depois?

Esse comportamento me ajudou a evitar ou conseguir alguma coisa?

E quais foram as consequências no longo prazo?

Essas perguntas ajudam a enxergar padrões que normalmente passam despercebidos.

Em vez de olhar apenas para o comportamento isolado, começamos a compreender o ciclo em que ele acontece.

E como a terapia pode ajudar?

Na psicoterapia, compreender padrões de comportamento é uma parte importante do processo.

Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e em abordagens comportamentais, podemos observar a relação entre situações, pensamentos, emoções, comportamentos e consequências.

A partir dessa compreensão, é possível desenvolver estratégias mais adequadas para lidar com aquilo que antes era enfrentado por meio da evitação, do controle, da impulsividade ou de outros padrões que passaram a trazer sofrimento.

O objetivo não é simplesmente dizer:

“Pare de fazer isso.”

É compreender:

“Por que isso acontece e o que podemos construir no lugar?