Entenda por que algumas derrotas abalam tanto nossa autoestima e como aprender a lidar de forma mais saudável com erros e frustrações
Fracassar dói.
Pode ser não conseguir a vaga que você queria, ver um relacionamento terminar, abandonar um projeto, não alcançar uma meta, cometer um erro importante ou perceber que algo no qual você investiu muito simplesmente não deu certo.
E, muitas vezes, o sofrimento não termina naquilo que aconteceu.
Depois do fracasso, podem surgir pensamentos como:
“Eu não sou bom o suficiente.”
“Todo mundo consegue, menos eu.”
“Eu estraguei tudo.”
“Talvez eu nunca consiga.”
É nesse momento que uma experiência de fracasso pode começar a se transformar em algo muito maior: um julgamento sobre quem somos.
Mas existe uma diferença importante entre fracassar em alguma coisa e ser um fracasso.
Por que fracassar dói tanto?
Nós criamos expectativas sobre o futuro.
Imaginamos como determinada situação deveria acontecer, investimos tempo, energia e esperança e, naturalmente, desejamos que nossos esforços tragam o resultado esperado.
Quando isso não acontece, existe uma perda.
Às vezes, não perdemos apenas uma oportunidade. Perdemos também a versão do futuro que havíamos imaginado.
Por isso, é natural sentir tristeza, frustração, vergonha, raiva ou decepção.
O problema não está necessariamente em sentir essas emoções.
O sofrimento pode aumentar quando começamos a interpretar o fracasso como uma prova do nosso valor pessoal.
“Eu fracassei” não significa “eu sou um fracasso”
Existe uma diferença enorme entre essas duas frases.
“Eu fracassei em algo” descreve uma experiência.
“Eu sou um fracasso” transforma essa experiência em identidade.
Quando fazemos isso, ignoramos todo o restante da nossa história e usamos um acontecimento específico para definir quem somos.
Uma prova ruim vira:
“Eu sou burro.”
Um projeto que não funcionou vira:
“Eu não sirvo para isso.”
Um relacionamento que terminou vira:
“Eu nunca vou conseguir manter uma relação.”
Uma experiência passa a funcionar como evidência de uma conclusão muito maior.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), aprendemos a observar justamente esse tipo de interpretação.
O acontecimento importa, mas a maneira como pensamos sobre ele também influencia profundamente aquilo que sentimos.
O pensamento tudo ou nada
O fracasso também pode ser especialmente doloroso para pessoas que enxergam resultados de maneira muito rígida:
Ou deu certo ou deu completamente errado.
Ou sou competente ou sou incapaz.
Ou consegui atingir minha meta ou todo meu esforço foi inútil.
Esse padrão é conhecido na TCC como pensamento dicotômico ou pensamento “tudo ou nada”.
O problema é que a realidade raramente funciona em extremos.
Você pode não ter alcançado o resultado desejado e ainda assim ter aprendido.
Pode ter cometido erros e também ter feito coisas importantes corretamente.
Pode decidir desistir de um caminho sem que todo o tempo investido nele tenha sido desperdiçado.
Existem muitos tons entre sucesso absoluto e fracasso absoluto.
Quando o perfeccionismo transforma erros em ameaças
Para alguém muito perfeccionista, errar pode parecer mais do que uma experiência desagradável.
Pode parecer uma ameaça à própria identidade.
Se a pessoa construiu seu valor em torno de ser competente, produtiva ou bem-sucedida, um fracasso pode ativar pensamentos como:
“Se eu não conseguir, vão perceber que não sou tão bom assim.”
“Eu deveria ter feito melhor.”
“Não posso cometer erros.”
“Preciso provar que sou capaz.”
Nesse contexto, o medo de fracassar pode se tornar tão intenso que a pessoa começa a evitar justamente aquilo que gostaria de fazer.
Ela procrastina.
Não tenta.
Desiste antes.
Prepara-se excessivamente.
Ou permanece apenas em situações nas quais acredita que conseguirá ter controle sobre o resultado.
Paradoxalmente, tentar evitar qualquer possibilidade de fracasso também pode limitar a vida.
A comparação torna o fracasso ainda mais doloroso
Existe outro ingrediente importante nessa história: a comparação.
Especialmente nas redes sociais, temos acesso constante aos resultados das outras pessoas.
Vemos alguém anunciando uma promoção.
Uma viagem.
Um casamento.
Uma conquista profissional.
Um projeto que deu certo.
Mas raramente acompanhamos todas as tentativas frustradas, dúvidas, erros e dificuldades que vieram antes daquele resultado.
Então fazemos uma comparação injusta: comparamos os bastidores da nossa vida com o palco da vida dos outros.
E, diante disso, nossos próprios tropeços podem parecer ainda maiores.
Fracassar não precisa virar uma lição imediatamente
Existe uma pressão contemporânea para transformar todo sofrimento em crescimento.
“Tudo acontece por uma razão.”
“Você precisava passar por isso.”
“Todo fracasso é uma oportunidade.”
Mas nem sempre precisamos encontrar uma lição imediatamente.
Às vezes, algo simplesmente deu errado.
E você pode ficar triste com isso.
Pode precisar de tempo.
Pode sentir frustração.
Aceitar uma experiência difícil não significa romantizá-la.
Você não precisa agradecer por tudo aquilo que doeu para conseguir seguir em frente.
Talvez algum aprendizado apareça depois.
Talvez não.
O importante é não transformar a experiência em uma sentença sobre o seu valor.
E se eu realmente tiver cometido um erro?
Ressignificar o fracasso também não significa fugir da responsabilidade.
Às vezes, nossas escolhas realmente contribuíram para um resultado ruim.
Talvez você tenha se preparado um pouco.
Talvez tenha tomado uma decisão impulsiva.
Talvez tenha ignorado sinais importantes.
Reconhecer isso pode ser desconfortável, mas também pode ser útil.
Existe uma diferença entre:
“Eu fiz algo que preciso rever.”
e
“Eu sou uma pessoa incapaz.”
Responsabilidade permite mudança.
Autocondenação costuma apenas produzir vergonha.
Como lidar melhor com o fracasso?
Quando algo não acontece como você esperava, algumas perguntas podem ajudar:
O que realmente aconteceu?
Tente separar os fatos das interpretações.
O que estou dizendo sobre mim por causa dessa experiência?
Observe pensamentos como “sou incapaz”, “nunca vou conseguir” ou “todo mundo está na minha frente”.
Estou transformando um resultado em uma definição sobre quem eu sou?
Uma experiência não representa toda a sua identidade.
Existe algo que posso aprender ou fazer diferente?
Quando houver algo que possa ser modificado, transforme a culpa em responsabilidade.
Existe algo que simplesmente preciso aceitar?
Nem todo resultado está sob nosso controle.
E, talvez uma das perguntas mais importantes:
Como eu trataria alguém que amo se essa pessoa estivesse passando exatamente pela mesma situação?
Provavelmente com muito mais compreensão do que você está oferecendo a si mesmo.
Fracassar também faz parte de tentar
Existe algo que facilmente esquecemos:
Para fracassar em alguma coisa, geralmente foi necessário tentar alguma coisa.
Quem se permite construir relacionamentos corre o risco de se decepcionar.
Quem inicia projetos corre o risco de eles não funcionarem.
Quem tenta algo novo corre o risco de errar.
Quem faz escolhas corre o risco de descobrir que escolheria diferente hoje.
Eliminar completamente a possibilidade de fracasso exigiria eliminar também muitas possibilidades de viver.
O objetivo, portanto, não precisa ser construir uma vida na qual nada dê errado.
Talvez seja desenvolver recursos para continuar vivendo mesmo quando algumas coisas dão.
Como a terapia pode ajudar?
Na psicoterapia, é possível compreender por que determinadas experiências de fracasso provocam um impacto tão intenso.
Às vezes, elas ativam crenças construídas ao longo da vida sobre competência, rejeição, valor pessoal ou necessidade de aprovação.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, podemos trabalhar pensamentos rígidos, autocrítica, perfeccionismo e padrões de evitação relacionados ao medo de errar.
O objetivo não é ensinar alguém a gostar de fracassar.
É ajudá-lo a desenvolver uma relação mais flexível com erros, limitações e resultados que não estavam nos planos.
Considerações finais
Fracassar pode doer.
E reconhecer isso talvez seja mais saudável do que tentar transformar imediatamente toda derrota em uma frase motivacional.
Mas uma experiência difícil não precisa se tornar uma definição sobre quem você é.
Você pode errar sem ser um erro.
Pode falhar sem ser um fracasso.
Pode descobrir que determinado caminho não funcionou e escolher outro.
Pode se decepcionar consigo mesmo e ainda continuar se tratando com respeito.
Talvez amadurecer não seja chegar a um ponto em que nunca mais fracassamos.
Talvez seja possível chegar a um ponto em que o fracasso deixa de ter o poder de decidir quanto valemos.